Por que não se pode falar sobre a morte se ela chegará para todos?
Porque ninguém gosta de sofrer, ninguém gosta da ideia de ter que se defrontar com a sensação de impotência e profunda tristeza gerada pela perda de alguém querido. Especialmente no ocidente, onde a maioria das religiões não considera a existência da reencarnação, a morte faz parte de um universo desconhecido. As pessoas não sabem como lidar com ela, por isso a morte se tornou um assunto tabu.

O fato é que a única certeza que temos sobre a vida é que tudo que nasce inevitavelmente morre. No entanto, a maioria das pessoas não quer nem pensar sobre o assunto, e muito menos falar sobre ele. Assim como nós, nossos parentes, amigos e até mesmo as crianças e os jovens que conhecemos podem morrer a qualquer momento, porque a morte é imprevisível e incontrolável.

A morte está na vida, ela é parte da natureza e seus ciclos. Ao invés de não tomar conhecimento do assunto, e ter que lidar com ele à força quando se impõe, seria mais sensato incluir a existência da morte em nossa vida e procurar aprender a lidar com ela.

Cada um tem sua crença, uma personalidade, e uma forma de reagir com relação a perda de alguém querido. Mas, grande parte das pessoas tenta fugir da realidade porque tem medo de sofrer e não querem vivenciar a situação de luto.

Alguns encaram o fato sob o ponto de vista da negação. Antes de vivenciar a tristeza, sentem raiva pelo ocorrido e se entregam à revolta, achando que a vida lhe foi injusta. Outros se dissociam da realidade buscando seguir com sua rotina cotidiana como se nada houvesse acontecido. Aqueles que estão olhando essa pessoa à distância podem se enganar, pensam que é muito forte, mas na verdade ela está tentando fugir das próprias emoções. Ainda existem aqueles que querem racionalizar a perda, para evitar entrar em contato com os próprios sentimentos, eles começam a dar explicações técnicas sobre o processo de morte do falecido.
Negar o luto só adia o martírio, não é possível evitar a dor eternamente. A tristeza reprimida vai se manifestar de forma violenta, quando algum estímulo que remete ao falecido acessar o núcleo psíquico desse sofrimento.
É preciso se permitir ficar triste, chorar, vivenciar e elaborar o processo da perda para poder superá-la. Quando morre alguém que faz parte da nossa convivência, alguém que “pertencia” a nossa vida, um vazio se instala em nosso peito, é como se um pedaço da nossa alma tivesse ido embora junto com quem partiu. A vida não tem mais como ser a mesma, é preciso reaprender a viver sem a presença física de quem amamos, a tarefa  é difícil, mas necessária.

Ter o apoio dos que compartilham da mesma perda é um pilar de sustentação que ajuda os enlutados a superar a ausência de um ente querido. Buscar uma terapia, ou mesmo participar de grupos de apoio formados por pessoa que vivem o mesmo processo também é de grande auxílio. Escrever, colocando os sentimentos em um papel ajuda a drenar a energia da tristeza, e colabora muito na elaboração do processo de perda. Mas, o essencial é praticar o auto acolhimento. Aceitar e expressar o sentimento de tristeza, não fugir, não temer ou se envergonhar das próprias lágrimas. A morte faz parte da vida, mas nem por isso precisamos aceita-la encobrindo as emoções. Com o tempo, a dor passa a dar lugar à saudade e às boas lembranças.

Nota da autora: Dedico esse artigo ao amado Sandor Kubric (1929 – 2016), e a todos os que precisam reaprender a viver sem a presença de seus entes queridos no plano material.

 

por Gisela Campiglia
Voluntária do TEMS

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